Solitude não é solidão

Dia desses, descobri que passei anos sonhando sozinha. Presa, tal e qual o Tom Cruise, num céu de baunilha que só exista na minha cabeça. Perdi muita coisa, mas há duas que simplesmente não podem ser recuperadas: a mim e aos anos da minha juventude. Anos e anos no auge da energia, da beleza e do vigor sonhando sonhos que não me pertenciam. E assim, sonhando o que não era meu, eu perdi a mim mesma. Me perdi num labirinto estranho de solidão, dedicação, autossabotagem e entrega infrutífera.  

Perdi os meses da minha gravidez. Meus sonhos profissionais. Meus planos da jovem impávida que um dia eu fui. Minha liberdade - que, à época, eu nem sabia que possuía. Já falei tanto aqui sobre caber em caixas. E eu me tranquei nessa caixa de sonhos alheios achando que meu céu de baunilha era de mais alguém. Não era. Nunca o foi. Minha dependência emocional e o machismo com o qual fui criada jamais me permitiram entender que eu precisava dar meu grito de independência. 

Como foi ruim perceber que eu havia sonhado tantos anos sozinha. Como foi importante entender isso porque, ao chegar a esse entendimento, eu pude começar a aprender a controlar meus impulsos autossabotadores. Pude entender que o não quase nunca é por egoismo e que a autopreservação é mais necessária do que qualquer outra ação. 

Tardiamente eu acordei do sonho do céu de baunilha. Tardiamente, mas à tempo de recuperar um pouco de vida, mas não de sonhos. Acho que perdi a capacidade de sonhar. Não quero mais fechar os olhos e me deixar entregue a outras expectativas. Minha meta é aprender a viver, na minha solidão, a paz que eu tanto busco. É preciso ressignificar a falta da presença de um outro qualquer e transformá-la em solitude. Solitude nunca será solidão. 

Não quero mais o sonho lúcido. Não quero mais a solidão acompanhada. Quero a solitude da minha varanda, onde as flores florescem felizes e os beija flores me visitam todos os dias. Solitude não é solidão. E é isso que eu preciso aprender

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